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UM CASO DE SÍNDROME DE PÂNICO TRATADO COM PSICOTERAPIA E HIPNOSE

PACIENTE:

Idade 70 anos. Separada.

Mora sozinha. Tem um casal de filhos.

Não possui nenhuma doença psicopatológica importante.

ANAMNESE:

Em nosso primeiro encontro entrevistei a paciente mantendo um diálogo aberto e amistoso. Procurei saber qual o motivo de estar buscando um apoio psicológico, desde quando começou a sentir tais sintomas e o que esperava com relação ao tratamento por hipnose.

- Queixa Principal:

Hipertensão, aperto no peito, insônia, ansiedade, muito medo de ficar sozinha e de morrer, palpitação e mãos frias, medo de altura, depressão, constantes sonhos em que morre afogada e muita falta de ar.

Estes sintomas apareceram mais ou menos há dois anos.

- Hábitos:

Gosta de caminhar, da vida do campo, do mar, de estar sempre em contato com a natureza, e de freqüentar a igreja católica.

RAPPORT :

Em todas as sessões, procurei deixar a paciente bem descontraída e a vontade. Conseqüentemente, houve uma boa resposta a cada encontro. Nosso relacionamento transcorreu sempre em um clima amistoso, tornando bastante tranqüila a comunicação. Expliquei como seriam os outros encontros. Falei sobre a hipnose e seus benefícios.

PRIMEIRA SESSÃO: 17/06/2002:

Nesta primeira sessão, solicitei que detalhasse sua história de vida.

A paciente queixou-se estar sobrecarregada, pois embora separada há quinze anos, a família do ex-marido a solicita sempre para cuidá-lo em sua doença, pois o mesmo sofre de câncer e recentemente teve isquemia, necessitando de cuidados especiais. Devido a esta situação, a paciente começou a sentir-se pressionada, teve problemas de saúde (aperto no peito), precisando ser hospitalizada. Depois deste fato, avisou as ex-cunhadas que não seria possível continuar com esta responsabilidade, pois além de estar doente não tinha mais nenhum vínculo com o ex-marido.

Ao concluir sua fala, mostrou estar tensa e muito ansiosa. Para tranqüilizá-la, expliquei que iria iniciar um relaxamento que a conduziria ao transe hipnótico e que seria importante para seu tratamento. Logo em seguida, pedi que se acomodasse em uma posição confortável e que respirasse suave e profundamente. Após ter relaxado, sugeri que imaginasse estar em algum lugar de sua preferência como: mar, montanha, campo, etc… Este lugar escolhido seria seu refúgio quando precisasse relaxar, onde se sentiria calma e protegida. A paciente lembrou da sua casa de campo onde no passado vivenciou momentos felizes. Em seguida, enviei a seguinte sugestão:

- “Neste lugar escolhido, tudo está em perfeita harmonia e você passeia pelos campos, sentindo o perfume das flores, caminha lentamente sentindo a brisa em seu rosto... e as batidas cardíacas estando no seu ritmo normal”...

Sabendo ser a paciente católica, procurei de alguma forma colocá-la em contato com sua fé, programando um diálogo, da mesma, com Jesus e Maria. Também sugeri que caminhasse de mãos dadas com ambos, sentindo-se protegida, e percebesse que, por onde passavam, o caminho ficava totalmente iluminado.

“... A partir de hoje suas noites serão tranqüilas em companhia de Jesus e Maria. Sua mente inconsciente trabalhará cada vez mais para que sua saúde se restabeleça, fazendo-a sentir-se protegida, com muita paz, alegria de viver, avisando-a sobre os perigos da pressão, fazendo-a saber respeitar seus limites.”

SEGUNDA SESSÃO: 24/06/2002:

Ao iniciar a consulta, perguntei como havia passado a semana. Respondeu-me que havia passado bem, porém, três dias antes, sentira-se mal; com depressão, insônia e medo. Perguntei se saberia explicar o porquê desse medo. Respondeu-me: - “tenho medo de morrer dormindo sem que meus filhos saibam, pois eles moram nos Estados Unidos e eu moro sozinha aqui no Rio”. Escutei-a atenciosamente e em seguida disse-lhe: -“Esse problema tem solução, basta querer resolvê-los”. Respondeu-me: -“É o que mais quero! .”

Pedi então que respirasse suavemente. Quando estava profundamente relaxada, sugeri o seguinte:

“Mergulhe no seu interior, sentindo seu corpo.Perceba o som a sua volta, aprenda a curtir um minuto de cada vez, ao longo do seu dia. Visualize luminosidade e cores. Sinta a vida em você. Construa um caminho onde possa desfrutar da linda paisagem. Observe o mar, caminhe pela areia, mergulhe e brinque gostosamente com as conchas.

Respire suavemente e enfrente com fôlego o que vier, faça a caminhada, PARE! Aprecie a viagem. PARE! Tome fôlego, muito bem! Muito bem! Você pode fazer muito por você. A depressão, o medo, a ansiedade vão diminuindo pouco a pouco e se transformam em gostosa sensação de bem estar. Seus pensamentos negativos serão substituídos por pensamentos positivos. Tome uma atitude frente às coisas que você pode mudar, afinal, já está mudando. Entre na sabedoria da sua mente, sinta-se bem protegida, aconchegue-se no cantinho gostoso que você escolheu. A partir de hoje seu inconsciente começa a trabalhar no sentido de restabelecer sua saúde e você já pode sentir tais efeitos. Comece usufruir estes momentos, imaginando uma caminhada de mãos dadas com Jesus e Maria, e perceba como eles te protegem. Mantenha um diálogo com Ambos e observe que por onde passam, o lugar fica totalmente iluminado.”

TERCEIRA SESSÃO: 01/07/2002:

Ao começarmos a consulta, a paciente disse sentir-se melhor, porém continuava com medo, depressão e insônia. Perguntei se estas perturbações ocorriam com freqüência. Respondeu-me que os sintomas apareciam alternadamente, uns dias passava melhor e outros pior. Pedi que tivesse paciência pois o resultado nem sempre é tão rápido. Disse-lhe então: - “Aguarde os acontecimentos, pois seu sábio inconsciente lhe trará boas respostas”.

Ao entrar em transe, pedi que escolhesse um número de um a quinze, avisando-a que o número escolhido poderia ter ligação direta com o seu passado; imediatamente respondeu-me o número seis.

Perguntei qual o acontecimento importante ocorrido quando tinha seis anos. Lembrou do medo que sentira ao ver a avó morta e também de sua tristeza pelo fato desta não se comunicar com ela. Relatou a seguinte cena: a avó sentada em uma cadeira com sua irmãzinha ao colo, enquanto a mãe tirava uma foto.

Perguntei o que sentira naquele momento. Respondeu-me: -“Nada, apenas olhava.’

Percebi que faltava algo. Insisti que voltasse àquela cena e pedisse ao seu sábio inconsciente para ajudá-la lembrar de algum detalhe esquecido. Em seguida respondeu-me:

“- Gostaria ter sido aquele bebê”.

Neste momento, pedi que se colocasse frente a avó e falasse sobre seus sentimentos, perguntando-lhe porque não era ela quem estava em seu colo : -“Procure agora escutar então, o que sua avó tem a lhe dizer”. Ela repetiu então, o que sua avó tinha dito: - “É um bebê, não sabe andar e precisa ficar no colo.”

Pedi que falasse com ela sobre o seu desejo (a cena foi repetida, a avó entregou o bebê a mãe, pegou-a nos braços, abraçou-a, beijou-a se despedindo).

Interferi fazendo a seguinte observação: -“O seu sentimento como criança fora perfeitamente normal.”.

Após esta cena, perguntei se havia outras lembranças significativas em sua infância. Respondeu: -“Aos sete/oito anos não gostava da noite, tinha muito medo da escuridão e de ficar em seu quarto porque os amigos contavam histórias de fantasmas.”

Naquele momento procurei protegê-la, mostrando estar ali para ajudá-la. Sugeri que procurasse vivenciar aqueles momentos sem sofrimento, pois tais fatos eram apenas lembranças.

Pedi que observasse sua respiração suave e tranqüila e sentisse como estavam normais os seus batimentos cardíacos.

“Estando completamente segura e com a sensação de bem estar, entre agora em seu quarto escuro. Olhe ao seu redor todos os fantasmas ali presentes, são muitos, converse com eles. Diga-lhes que você possui uma luz muito forte e pode destruí-los. Vá em direção a eles e tente” .

Assim o fez e pôde perceber que os fantasmas fugiam, o quarto tão escuro ficou totalmente claro.

- “Observe agora seu quarto totalmente iluminado, e coloque dentro dele a natureza: jardim, flores, mar, conchinhas, etc…Sinta-se como se estivesse na sua infância, nadando no mar, brincando com as conchinhas, vivenciando as gostosas lembranças daquela época, onde sempre estivera protegida por JESUS e MARIA .”

Quanto ao medo de ver a avó morta isto é perfeitamente normal. Pedi então que dialogasse com ela e vivenciasse aquele momento podendo despedir-se sem medo. Solicitei, também que a desculpasse, tentando compreender seus problemas e dificuldades.

QUARTA SESSÃO: 07/07/2002

Perguntei como estava passando. Respondeu-me que durante a semana tinha passado muito bem, porém na noite anterior não dormira, estava pensativa e preocupada, queixou-se de ter sentido culpa, pois não cuidara bem dos seus filhos quando crianças,tinha que trabalhar e fazia papel de pai e mãe. Falei que não somos perfeitos, temos nossos limites, porém o mais importante foi o resultado obtido: os filhos estão criados, com boa formação de caráter e bem situados, e se esta culpa tivesse procedência, deveria questionar porque era tão amada por eles.

“A respeito dessa culpa saiba que Deus está sempre pronto a nos perdoar. Se ele já nos perdoou porque continuar com culpa?”

Lembrei de sua generosidade quando acolheu o ex-marido cuidando de sua doença, mesmo estando separada.

Neste momento respondeu: – “É mesmo! Não tinha pensado nisto.”

Após o diálogo demos continuação ao relaxamento.

Em transe, propus que desse um passeio no lugar escolhido (como nas sessões anteriores), prestando atenção ao que estivesse acontecendo ao seu redor. Pedi que observasse os vários caminhos ao seu dispor e que, sua mente inconsciente,fizesse uma escolha.

- “Ao escolher o melhor caminho, sentindo-se cansada, olhe em frente, você verá várias placas escritas PARE, sente-se na relva, respire suave e pausadamente, sinta a brisa em seu rosto. Lembre-se: a luz que lhe acompanha é muito forte, é a luz divina, ela habita em você e segue seus passos. A partir de hoje suas noites serão tranqüilas e, com muita calma, saberá resolver seus problemas. Diante das dúvidas saberá optar pela melhor solução, obedecendo sempre seus limites, e sentindo-se cada vez mais aliviada. Seu sábio inconsciente trabalhará sempre a seu favor.”

Ao sair do transe, chorou de emoção, abraçou-me e disse ter sido a sessão que mais conseguira relaxar. Estava sentindo-se muito bem.

QUINTA SESSÃO: 15/07/2002

A paciente chegou tranqüila, dizendo ter melhorado muito e, desde que iniciou o tratamento, não precisou ir ao médico com a mesma freqüência. Queixou-se da solidão e da falta dos filhos. Estes moram nos Estados Unidos e insistem para que vá morar com eles, mas sempre rejeita o convite com medo de não se adaptar, demonstrando assim insegurança. Pedi que falasse sobre este medo e ela teve dificuldade de se expressar embora, demonstrando tranqüilidade, percebi que a ansiedade estava bem presente.

Iniciei o trabalho repetindo a rememorização, e novamente pedi que escolhesse um número de um a quinze. Desta vez escolheu os números sete e oito.

Perguntei o que fazia lembrar estes números. Respondeu-me: - “Quando criança era muito triste. Entre sete e oito anos de idade lembro-me do meu pai deitado em uma cama bêbado, minha mãe do outro lado muito doente, tive muito medo que ela morresse.”

Neste momento interferi dizendo: -“É normal que tivesse sentido esse medo, entendo a insegurança de uma criança que tem um pai bêbado e “ausente” e o que seria dela se “perdesse” a mãe também”. Pedi que dialogasse com sua mãe e falasse sobre esse medo. Depois de um breve silêncio, perguntei quando a mãe tinha morrido. Disse-me que morrera bem velhinha. Como pode observar sua mãe adquiriu força e conseguiu sobreviver no meio a tantos problemas. Sugeri então que seguisse pela vida segura e protegida por uma mãe carinhosa e forte, que sempre a amou.

SEXTA SESSÃO : 22/07/2002

Ao iniciar a consulta, como de costume perguntei como passou a semana. Respondeu-me: -“Com dor de cabeça e pressão alta”.

Perguntei sobre sua alimentação - sabendo ser hipertensa - respondeu-me ter abusado bastante dos alimentos e por isso o colesterol subiu. Interferi: -“A terapia é eficaz para alguns casos, entretanto, certas doenças devem ter acompanhamento médico e o regime alimentar deve ser obedecido.”

Reconheceu seu erro , em seguida queixou-se da solidão dos fins de semana e da falta dos filhos.

Perguntei o que a impedia de viajar e estar com eles. Respondeu-me: -“Sinto medo e tenho dúvidas, se vou me adaptar.” Para ajudá-la a refletir sobre tais dúvidas e medo, solicitei que listasse as vantagens e desvantagens de sua ida.

Ao entrar em transe profundo, sugeri que seu inconsciente encontrasse uma resposta, oferecendo-lhe a melhor opção (viajar ou ficar) e que sua saúde fosse restabelecida.

SÉTIMA SESSÃO: 29/07/2002

Perguntei se no decorrer da semana havia passado bem. Respondeu-me: -“Passei bem melhor, mas no sábado senti forte pressão no peito e muito medo da solidão”.

Fiz uma breve regressão, fazendo-a recordar momentos felizes de sua infância.

Perguntei qual a brincadeira que mais gostava quando criança. Respondeu-me que era subir em árvores, correr, pique, etc.

Sugeri que voltasse ao tempo de sua infância e lembrasse daqueles momentos felizes quando subia em árvores e brincava de correr com seus amigos. Esperei um pouco e propus que vivenciasse aqueles momentos de paz e tranqüilidade.

“Ao terminar a brincadeira, sentindo–se cansada, dê uma pausa, procure relaxar, respire suave e tranqüilamente. Agora, sentindo-se totalmente abastecida, com muita energia, volte aos poucos a idade adulta e traga consigo essas lembranças dos momentos felizes do passado”...

...“Neste instante, voltando a idade adulta você pode observar que está diante de uma longa estrada. Procure caminhar lentamente, no meio do caminho encontrará duas malas pousadas no chão, ao aproximar-se delas, observe que estão endereçadas a você, porém vazias. Coloque em uma delas todos os seus problemas e na outra as soluções e seus desejos. Carregue-as e continue a caminhada. No final do trajeto, avistará um balão dirigível, colorido, esperando por você. Ao entrar, desfaça-se da bagagem mais pesada. Coloque as malas no chão, cate gravetos e pequenos pedaços de madeira e prepare uma fogueira. Logo em seguida ateie fogo. As labaredas estão muito altas. Agora lance a mala mais pesada no fogo. Observe como queima lentamente. Pegue a outra, entre no balão e sinta como sobe suave e tranquilo, subindo… subindo… cada vez mais. Lá de cima você pode observar que as chamas consomem aquela bagagem. A medida que o balão sobe, tudo desaparece, restando apenas cinzas. Agora, sente-se confortavelmente e aprecie o filme que começa a passar em uma grande tela: uma criança tranqüila, acompanhada de muitas amigas, subindo em árvores, comendo frutas gostosas, sentindo-se protegida e com muita alegria de viver. Ao terminar o filme observe o balão, que muito subiu, começa a descer suave e lentamente, e vai se esvaziando. A criança sai da tela, é absorvida por você, formando um só “EU”. Finalmente o balão pousa equilibradamente. Pegue sua bagagem e leve-a consigo. Ao chegar, observe quantas pessoas queridas aguardam alegres, sorridentes e ansiosos por sua vinda. Vá ao encontro delas, abrace-as, agradeça-as e fale sobre sua felicidade de estar ali.”

OITAVA SESSÃO 5/08/2002

Chegando para a consulta perguntei qual seria novidade da semana. Disse-me que estava feliz, sentindo-se muito bem. Pedi que detalhasse tais sentimentos, respondeu-me: - “Não tenho mais medo da solidão, tenho dormido muito bem e decidi que vou viajar e morar com meus filhos”. Antes, porém, devo submeter-me a uma pequena cirurgia (mostrou-me a pálpebra alterada com um pequeno quisto). Comentei que deveria removê-lo antes da viagem. Demonstrei minha alegria por vê-la tão bem e decidido ir para os Estados Unidos. Elogiei-a por sua força de vontade. Sugeri então que começássemos um trabalho com a intenção de remover o quisto, utilizando a técnica da autoscopia. Antes do exercício, expliquei rapidamente o que significava autoscopia. Ao término, perguntei como tinha vivenciado tal experiência.

Respondeu-me: -“Foi tão real que senti nitidamente como se estivesse viajando no meu próprio corpo ”. Elogiei-a mais uma vez.

- “Você pode fazer muito por você, agora sinta sua saúde física e mental sendo restabelecida, imagine-se caminhando em direção ao aeroporto, entrando em um avião, carregando em sua bagagem muitos presentes. Ao chegar em seu destino, espere calmamente o avião aterrissar, desça as escadas com tranqüilidade, observe quantas pessoas a aguardam ansiosamente. Entre essas pessoas estão seus filhos, que a esperam com muita alegria. Aproxime-se e abrace-os carinhosamente.“

NONA SESSÃO 12/08/2002

Como de costume, no início da consulta, perguntei se havia passado bem a semana. Respondeu-me: -“Sim, nunca me senti tão bem.” Em seguida, abraçou-me carinhosamente e emocionada mostrou-me sua pálpebra completamente curada. Fiquei surpresa e retribuí o abraço compartilhando aquele momento de emoção. Comentamos sobre o fato, e ela disse: - “Foi bom ter me livrado da cirurgia. O quisto não me preocupa mais, porém de vez em quando ainda tenho insônia.”

Recomeçamos em seguida o exercício de rememorização.

Estando em transe, sugeri que escolhesse aleatoriamente um número que tivesse significado importante em alguma fase de sua vida. Prontamente, mencionou o número quinze. Pedi que indagasse ao seu inconsciente o motivo pelo qual escolhera tal idade. Respondeu-me, que aos quinze anos se considerava feia, inibida e desajeitada. No seu aniversário de quinze anos, entre outros convidados, estava presente um amigo da família de quem gostava, porém mantinha esse amor em silêncio. Nunca deixou transparecer seus sentimentos, pois imaginava ser rejeitada. Nesse instante, insisti que voltasse àqueles momentos, assim o fez. Dei um pequeno intervalo. Respondeu-me que, ao recordar aquelas cenas sentia-se muito triste. Disse-lhe então: -“Nesse instante, reviva aqueles momentos e reconstrua tais cenas.”

“Imagine ser a Cinderela. Estando numa linda festa, aceite o convite deste rapaz para dançar e dance a noite inteira. Aproveite a oportunidade e fale sobre os seus sentimentos. Imagine também, recebendo dele abraços, beijos, elogios e tudo mais que gostaria de ter realizado.

A hora se foi. Ao se despedir, guarde consigo todos os momentos felizes daquela noite.”

Estando agora na idade adulta procure lembrar se existiram outros fatos que tenham marcado sua vida , e que ainda a incomodam .

Respondeu-me: “- Aos trinta e seis anos fiquei grávida. Quando a criança nasceu fiquei frustrada ao saber que era uma menina, pois desejava que fosse um menino. Ao tomá-la em meus braços, passei a amá-la imediatamente, porém sinto muita culpa por tê-la rejeitado. “

Ao término de sua fala, pedi que imaginasse esta criança no seu colo. Agora fale com ela sobre seus sentimentos. Assim sendo, conversou com sua filha e disse o quanto a amava e que jamais a trocaria por um menino. Pediu desculpas e beijou-a carinhosamente.

DÉCIMA E ÚLTIMA SESSÃO

A paciente chegou risonha, dizendo sentir-se muito bem e gostaria de terminar seu tratamento, pois se encontrava totalmente restabelecida. Falou que não comparecia com tanta freqüência ao cardiologista como antes. Aconselhei-a não deixar de freqüentar seus médicos periodicamente. Agradeceu-me e outra vez mostrando sua pálpebra sem o quisto. Fiquei surpresa e em seguida perguntei sobre sua insônia. Respondeu-me: - “Não tenho mais insônia.” Lembrei de perguntar sobres seus antigos sonhos, nos quais morria afogada, e se estes ainda a incomodavam. Respondeu: - “Nunca mais os sonhei, já nem me lembrava mais”. Perguntei ainda: -“E de ficar sozinha? Respondeu: “- Desapareceram por completo. Não sinto mais aqueles medos exagerados e estou segura, mesmo estando só, apenas permanece um pouco de medo de viajar de avião.” Disse-lhe: -“Isto é normal, pois o medo real nos protege dos possíveis perigos, próprios da vida. Em seguida falou: -“Mesmo assim, decidi viajar. A passagem já está marcada e meus filhos me aguardam”.

Demonstrei minha emoção e parabenizei-a pelo seu esforço em querer transformar sua vida.

Solicitei que fizéssemos um último exercício, a fim de reforçar sua tranqüilidade, e garantir uma boa viagem. Quando em transe pedi que imaginasse entrando em um avião cercado por vários anjos que a acompanhariam até o destino final.

“ Ao acomodar-se na poltrona, observe uma tela onde aparece a imagem de Nossa Senhora. Esta imagem desce da tela, cria vida e lhe abraça. Chegando ao seu destino, agradeça e peça que sempre a acompanhe. Desça calmamente, pegue suas bagagens. Sentindo-se agora segura, vá em direção aos seus filhos, que a esperam ,e aproveite este momento de alegria.”

Contei até cinco, despertou lentamente. Perguntei como estava se sentindo. Respondeu: -“Estou muito bem! Peguntei: -“Você ainda tem alguma coisa para falar?”

Respondeu: -“Ah sim, já estava esquecendo...Sonhei com uma criança, aparentando ter entre sete e oito anos. Como era esta criança? A criança do sonho tinha sobrancelhas perfeitas, bem delineadas como gostaria que fossem as minhas, pois as minhas, são cheias de falhas.”

Perguntei: - “Como você vê esta criança?” Disse-me: -“Muito tranqüila.”

“ Respondi :parece ser esta criança você mesma, apresentando-se agora com uma nova imagem: uma menina tranqüila, com as sobrancelhas bem delineadas, como você gostaria de ser”.

Quando terminei a explicação, refletiu sobre o comentário, dizendo: - “Realmente estou me sentindo uma nova pessoa.”

Elogiei-a pelo seu esforço, lembrando-a mais uma vez que a cura depende da vontade da pessoa, pois a hipnose é sempre uma auto-hipnose, e o papel do terapeuta é trabalhar passo a passo junto ao paciente. Neste momento abraçou-me agradecendo.

Dois meses depois me telefonou despedindo-se pois estava de partida.

CONCLUSÃO:

Para obtermos uma boa resposta em nosso trabalho, é necessário que mergulhemos junto ao paciente no profundo mar do seu inconsciente. Ao término do tratamento, estando este restabelecido, podemos ter a certeza de que o amor, um bom rapport e a técnica adequada, garantem o êxito da terapia.

Anete Monteiro de Almeida Carneiro

Psicoterapeuta e Hipinóloga

Rio de janeiro, setembro de 2002

 

Este trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Hipnose, órgão oficial da Sociedade Brasileira de Hipnose –Vol 23-Ano 2002 –Jul-Ago –pags 38 a 52

 

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